Futuro Interrompido

Superar a perda de um bebê pode ser solitário mesmo para as mulheres casadas; como o luto impacta as relações?

‘Não é justo colocar a culpa da separação na perda de um bebê’

“Vivi um relacionamento longo, de quase 12 anos. Quando estávamos juntos havia seis, engravidei da minha primeira filha, a Beatriz. Foi uma gestação planejada e que nos trouxe muita felicidade.

Nosso sonho era ter mais um filho, mas preferimos esperar antes de tentar novamente.

Quando a notícia da minha segunda gestação chegou, cinco anos depois, em 2017, foi uma festa. Compramos uma uma camisetinha para a nossa filha, escrito ‘irmã mais velha’.

Foi durante o pré-natal, no entanto, que vivi uma das cenas mais tristes da minha vida. Com 12 semanas, fui fazer um ultrassom, e o silêncio da máquina que deveria escutar o coração da bebê foi ensurdecedor. A gravidez não tinha se desenvolvido. Saí da sala aos prantos.

Minha relação não estava às mil maravilhas, mas seguimos juntos e nos esforçando para fazer dar certo. Passamos pelo luto juntos, embora sinta que para a mulher a experiência é mais intensa, por envolver diretamente o seu corpo.

Alguns meses se passaram até que conseguimos nos reconectar fisicamente e, quando me senti pronta, não usávamos proteção nas relações sexuais. Com isso, chegou a notícia da minha terceira gravidez. É estranho explicar essa sensação para as outras pessoas, mas, no meu íntimo, sabia que ela não iria para a frente.

Com dez semanas, infelizmente, as minhas impressões se concretizaram e passei pelo segundo aborto. Dessa vez, estava sozinha no consultório médico e tive uma reação bem diferente, mais racional.

A perda de um filho gera um sentimento difícil para as pessoas ao redor compreenderem. Sem saber o que dizer, muitas acabam falando besteira. ‘Ainda bem que foi no começo’ ou ‘Sorte que você ainda não tinha comprado muita coisa’. É difícil ouvir isso com a cabeça a mil e lidando com a frustração de um futuro que não vai se realizar.

Além da questão social, existe o casamento. Não é justo colocar a culpa da separação na perda de um bebê, mas foi um acontecimento impactante, que evidenciou que já estávamos seguindo por caminhos diferentes. Seis meses depois, veio o divórcio.

O que sempre digo é que não existe prazo para o luto. O meu vai ser eterno. Depois que consegui falar abertamente sobre o assunto foi que entendi que a experiência é bem mais comum do que imaginava —e que cada casal encara o acontecimento de maneira diferente.”

Livia Haddad, 39 anos, jornalista, de Jundiaí (SP).

‘Queria que meu marido sentisse a mesma dor que eu’

“Depois de começar a namorar, aos 25 anos, minha vida mudou rapidamente: me casei em menos de um ano. Nossa relação sempre foi boa e, no segundo ano de casamento, engravidei de gêmeas. Como gestações desse tipo são comuns na minha família, esse fator não foi uma surpresa. Na verdade, já até esperava por isso e imaginava que a maternidade aconteceria dessa forma para mim.

Por ser uma pessoa que cuida da alimentação e pratica exercícios físicos, nunca imaginei que pudesse ter algum problema de saúde nessa fase. No entanto, descobri que estava com uma condição chamada trombofilia, que coloca em risco tanto o bem-estar da mãe quanto dos bebês. Com isso, passei a fazer um tratamento com injeções anticoagulantes e a seguir as recomendações médicas.

Com 20 semanas, saí para caminhar e senti uma dor no baixo-ventre, além de sensação de desmaio. Voltei imediatamente para casa e, duas horas depois, a dor se estendeu para a lombar e para o quadril. Soube que algo não ia bem e fui para o hospital sozinha, já que meu marido estava no trabalho e só conseguiu chegar lá depois.

A experiência toda foi traumática: sofri violência obstétrica e ouvi frases insensíveis de médicos enquanto passava por um parto prematuro. Minhas filhas nasceram vivas, uma delas machucada pela forma como foi tirada, e ainda sobreviveram por alguns minutos.

Depois de enterrar as duas, entendi o que é ter a dor do luto invalidada. Já tínhamos comprado muitas roupas, babá eletrônica, fraldas e, pouquíssimo tempo depois, as pessoas me pressionavam para doar tudo. Um conhecido chegou a dizer para o meu marido que foi melhor assim, porque elas poderiam ter alguma doença ou fazer mal para nós no futuro.

Fora isso, tive que viver o puerpério e lidar com as mudanças hormonais, com o leite empedrado e com todas as questões de uma gestação gemelar em meio ao luto.

Esse turbilhão, obviamente, impactou no meu casamento. Eu estava sempre triste, chorando e me sentia mal por vê-lo seguindo a vida. Em alguns momentos, tive a sensação de que ele não as amava como eu, queria que sentisse a mesma dor que eu sentia.

Demoramos para reatar nossa vida sexual e, quando fizemos isso, eu rapidamente senti vontade de tentar de novo. Muitos me diziam que eu era nova, que logo teríamos outro bebê, e internalizei essas palavras fortemente.

Eu não queria não estar grávida, por isso a cada relação tinha a esperança do resultado positivo e fazia vários testes por mês. Aos poucos, entendi o quanto esse pensamento era nocivo para o casal e o quanto estávamos nos perdendo.

Tivemos algumas conversas e até ajuda de outras pessoas para que conseguíssemos alinhar nossas expectativas novamente. Hoje, estamos caminhando bem, nos cuidando, nos aproveitando. Compartilhando o sonho de ser pais, mas sem pressa e com a certeza de que tudo acontecerá no momento certo.”

Caroline Finamor, 28 anos, criadora de conteúdo, de Uberlândia (MG)

‘Não me sentia capaz de realizar o nosso sonho’

“Ao longo do tempo, sinto que vivi o luto de todas as formas que uma mulher é capaz de viver. Comecei a namorar aos 16 anos, e a primeira vez que engravidei foi aos 23.

Naquela época, fui pega desprevenida. Nós éramos jovens e queríamos ter uma família, mas ainda não estávamos organizados para isso. Apesar disso, ficamos felizes com a novidade. Seis meses depois, essa gravidez foi interrompida. Passei por um parto, e a bebê não resistiu.

Pedi as contas do trabalho e passei uma semana na cama, comendo quase nada. Vivi um luto intenso por quase um ano. Nisso, nos conectamos ainda mais como casal. Meu companheiro também sofreu, me ofereceu apoio e foi muito presente.

A experiência acelerou nossos planos de casamento e de estruturar nossas vidas juntos. Dois anos depois da perda, senti vontade de engravidar novamente e aconteceu.

Com poucas semanas de gestação, tive um aborto espontâneo, algo que pode acontecer com qualquer mulher. Mas, naquele momento, lembro de pensar se o problema era comigo, se tinha feito algo de errado, se era digna de passar por aquilo.

Dessa vez, a frustração foi maior do que a dor. Por causa disso, procurei um médico para investigar o que estava acontecendo e fui diagnosticada com insuficiência do colo do útero.

A preparação para uma nova gravidez foi intensa e levou dois anos. Sabia que precisaria passar por um procedimento chamado cerclagem e que deveria fazer repouso durante os nove meses de gestação. Quando deu certo, fiz tudo o que estava ao meu alcance para manter nossa saúde em ordem: cuidei da alimentação, da pressão, fazia consultas e só levantava para ir ao banheiro.

Ainda assim, entrei em trabalho de parto quando estava com 19 semanas. Ali, nosso mundo desabou. Sinto que fui ao fundo do poço.

Eu sonhava em ser mãe de um menino, e perder o João foi devastador. Mais uma vez, meu marido foi maravilhoso: um companheiro nota 10, que ficou comigo dia após dia, me vestiu, me deu banho, penteou meu cabelo, empurrou minha cadeira de rodas quando não tinha forças sequer para me movimentar.

Mas, nesse mesmo ano, passamos por uma situação limite: a quarta gestação. Ela aconteceu sem muito planejamento e também não teve continuidade. Durou apenas 13 semanas.

Ali, nós não tínhamos mais psicológico para pensar em uma família. Meu sentimento era de revolta. Eu só sentia dor, luto, raiva. Comecei a questionar Deus. Estava exausta e passei a dizer que não queria mais ser mãe. Não acreditava que algo tão terrível pudesse estar acontecendo comigo.

Nos afastamos. Eu dizia para qualquer um que me perguntasse que não queria mais ser mãe. Até que brigamos e nos separamos. Disse que ele deveria procurar outra pessoa, alguém que fosse capaz de realizar os sonhos dele, já que eu não daria conta disso.

Apesar da separação, continuamos nos falando, sem uma proximidade romântica. Estávamos construindo uma casa juntos e ele acompanhava de perto a obra.

Dois meses depois da nossa separação, fui chamada pela Unicamp para realizar um procedimento chamado cerclagem definitiva, que poderia eliminar de vez as minhas dificuldades em ter um filho. Concordei em fazer e precisei passar dois meses sem ter relações sexuais.

Exatamente no dia em que estava liberada para isso, nossa casa ficou pronta e reatamos nosso casamento. Ali, eu engravidei pela quinta vez e senti no meu coração que era para ser.

Hoje, somos pais do Anthony, de 3 anos, que consideramos nosso milagre. Fico feliz de não ter desistido do sonho que sempre tivemos juntos.”

Caroline Fernandes, 32 anos, empresária, de Extrema (MG)

“Estávamos muito envolvidas em sermos mães, por isso a dor foi a mesma”

“Eu e a Simone estávamos em um relacionamento há sete anos quando decidimos recorrer a um banco de sêmen e passar pelo processo de fertilização para engravidar. Foi fácil decidir qual de nós iria gestar, já que ela não tinha o desejo de uma gravidez na época. Por isso eu, que estava com 36 anos, optei por passar pelo tratamento. O processo é desgastante, bastante burocrático e caro. Então, quando vimos o resultado positivo, ficamos muito felizes e confiantes de que daria tudo certo.

Passamos um final de semana na praia e depois de alguns dias do retorno, tive um sangramento, com seis semanas de gestação. Fiz um ultrassom e descobri que havia perdido o bebê. Acredito que, para nós duas, a tristeza do momento tenha sido potencializada pela situação: o custo do tratamento, os hormônios, a papelada das clínicas. Na época, também não tínhamos nenhum casal de amigas com filhos nas quais pudéssemos nos inspirar.

Enquanto casal, não tivemos um afastamento. Nós duas estávamos muito envolvidas em sermos mães. No caso das uniões homoafetivas, não funciona como para os outros casais, que podem ter um pensamento do tipo ‘daqui a pouco acontece’. A gravidez requer um planejamento financeiro e hospitalar. Estávamos muito juntas, no auge da proximidade. Era ela quem injetava os hormônios em mim durante o tratamento. Por esse motivo, quando não deu certo, nossa tristeza foi a mesma.

O único sentimento diferente que tivemos foi a dúvida. Como a gravidez dependia do meu corpo para prosseguir, tive a sensação de incapacidade. Me questionava se estava muito velha, se tínhamos bobeado, se não deveria ter pensado no assunto cinco anos antes. Porém, conversávamos sobre isso e ela reforçava o quanto éramos saudáveis, nos cuidávamos e acreditava que as coisas tinham uma hora certa para acontecer. De fato, somente a terceira tentativa deu certo. Hoje, o Pedro tem seis anos e realizamos o nosso sonho”. Carol Campos, 45 anos, escritora, de São Paulo (SP).

FONTE:

uol.com.br /

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