Como identificar e tratar o distúrbio de imagem em crianças pequenas

O problema, que geralmente tem a ver com o meio no qual a criança está inserida, vem acompanhado de sinais bastante perceptíveis.

Embora mais evidentes durante a fase da adolescência, problemas de autoimagem também atingem crianças pequenas. Graças a um acesso maior à informação desde cedo, e à influência direta dos padrões de beleza repetidos nas redes socias, distúrbios de imagem são motivo de preocupação ainda na primeira infância.

É o que explica o cirurgião plástico Alexandre Kataoka, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. “A preocupação cada vez maior com a aparência e formas ditas como as ‘ideais’ é muito comum em tempos de redes sociais. Ao se comparar com fotos manipuladas por filtros e editores de imagens, a busca por um suposto corpo ‘perfeito pode ser excessiva, e um indicativo de sintoma da distorção de autoimagem, que traz prejuízos físicos e psicológicos até mesmo em crianças”, diz o médico. 

Também conhecido como transtorno dismórfico corporal, ou dismorfofobia, o distúrbio de imagem se manifesta quando a pessoa desenvolve uma visão irrealista do próprio corpo. Isso, complementa Alexandre, impede que ela tenha consciência de si mesma, o que leva a uma batalha interna que gera angústia e sofrimento e pode, ainda, vir acompanhada por outras questões graves, como anorexia, bulimia, depressão e ansiedade.

Causas do distúrbio de imagem na infância

Alessandra Augusto, psicóloga pós-graduada em Terapia Sistêmica, explica que todos nós, seres humanos, passamos por um processo de aprendizado por imitação na infância, no qual sofremos influências ligadas a aspectos da nossa cultura e sociedade. Esse processo de imitação envolve circunstâncias positivas e negativas, e hoje em dia a criança tem muito mais acesso à informação, de forma autônoma e global, sem limites.

Logo, uma criança com idade entre seis e sete anos, que geralmente não consideraria o próprio corpo uma grande questão, passa a ter esse olhar no momento em que é comparada com outras, direta ou indiretamente, quando é inserida na sociedade, na escola e no núcleo familiar. É importante ressaltar, ainda, que o distúrbio de imagem não é algo espontâneo, mas sim desenvolvido – de maneira ainda mais complexa em centros urbanos e globais.

“Com todas essas possibilidades de identificação, a criança pode se sentir perdida com relação a com qual grupo, com qual identidade, ela se identifica mais e melhor. Isso cria um choque, uma ansiedade, quase que um desespero, que é mais perceptível durante a adolescência”, reforça a especialista.

Alessandra ainda ressalta que, por conta da sociedade ainda atuar mediante estereótipos de gênero, além da cultura familiar assumir diferentes padrões de comportamento para meninos e meninas, a escola, ambiente no qual se dá o primeiro contato social também pode influenciar no quadro. “Dependendo do público dessa escola, a criança também sofre certas pressões com as quais ela nem sequer está preparada para lidar e, assim, questões que antes só surgiam na adolescência, hoje também aparecem na infância”, diz ela.

Para a psicóloga Rosana Cibok, o distúrbio de imagem costuma se manifestar com mais evidência em meninas do que em meninos, já que, graças à cultura machista, garotas tendem a estar mais ligadas aos padrões artificiais de beleza impostos pela sociedade.

A valorização excessiva da magreza, diz ela, bem como a construções de estereótipos irreais fazem com que meninas se sintam pressionadas desde cedo a buscarem por esse ‘corpo perfeito’ a qualquer custo, o que pode ser um gatilho para doenças como anorexia e bulimia.

“A imagem corporal é construída desde a infância, e a insatisfação está relacionada com a forma do corpo, com o peso e com os sentimentos que isso ocasiona. Ou seja, eles são gerados de acordo com a maneira como a criança pensa sobre ela, o que pode acontecer por influências externas, uma vez que a criança busca aprovação e aceitação no meio em que vive”, acresce.

Existe, ainda, a possibilidade do desenvolvimento do distúrbio de imagem ligado ao distúrbio alimentar seletivo, quando crianças apresentam uma recusa exagerada a certos tipos de alimento, rejeitando a maioria das opções oferecidas por seus cuidadores. Essa recusa pode ser causada por outros problemas psicológicos, como a fobia social, além de alterações no paladar e dificuldades na deglutição. Observar tudo isso é essencial para prevenir possíveis patologias.

Os sinais podem estar aí…

Ambas as profissionais consideram relativamente fácil de identificar o que podem ser sinais de um distúrbio de imagem em crianças pequenas, isso porque o comportamento também muda. Para Rosana, além dos distúrbios alimentares já citados, os pais devem ficar atentos se há: 

  • afastamento social, quando a criança deixa de se relacionar até mesmo com os amiguinhos mais próximos;
  • sono excessivo;
  • ansiedade;
  • agressividade;
  • falas que indicam uma baixa autoestima
    prática .

 

A imagem corporal, explicita a psicóloga, é algo sistêmico, que abarca fatores físicos, emocionais e mentais. “Os sinais de alerta para um distúrbio de imagem costumam ser bem claros, quando a criança desperta o desejo de mexer ou mudar a própria imagem. Ela passa a ficar muito mais retraída, não querendo estar em eventos sociais, ir para a escola, aparecer ou falar com os demais. Isso pode representar tanto um episódio pontual, que vem ocorrendo no ambiente escolar, quanto a existência desse conflito de identidade, do distúrbio da aparência”, incorpora Alessandra.

De qualquer maneira, é essencial que o núcleo familiar esteja atento às mudanças de comportamento e de fala. Se a criança apresentar um discurso diferente quando o assunto é a própria imagem, é papel da família questioná-la, procurando saber de onde ela trouxe isso, quais artifícios ou materiais têm a ver com essa mudança de fala. A psicoterapia pode sempre funcionar como ferramenta capaz de auxiliar na investigação.

Bullying na escola contribui

Quando o distúrbio de imagem surge por consequência de algo que a criança vem passando dentro do ambiente escolar, como episódios de bullying na infância, a instituição deve ser comunicada imediatamente, para que sejam tomadas as devidas providências. Se o pequeno tiver dificuldade em se abrir ou explicar o que vem ocorrendo, o melhor é insistir no diálogo aos poucos, com paciência, e usar de estratégias lúdicas, como livros, filmes e brinquedos, para fomentar essa investigação.

Alessandra diz, ainda, que a escola, embora não seja responsável pela educação dada dentro de casa, pode servir como meio de campo para que demandas relacionadas à diversidade e aceitação sejam discutidas e trabalhadas.

Rodas de conversa entre professores e alunos, reuniões de pais focadas em assuntos como bullying e diversidade, a presença de profissionais de saúde mental como palestrantes no ambiente escolar e trabalhos em grupo com a temática da aceitação costumam ser bons recursos usados por professores e orientadores.

Quando buscar ajuda profissional?

Já o momento de buscar ajuda profissional, sugere Alessandra, se dá quando os pais ou responsáveis não são capazes de dar conta do que vem acontecendo com a criança. Isso porque, para ela, como pais e tutores é preciso ocupar este papel de ensinar o pequeno a entender quem ele é, mas, para isso, é preciso que os pais também façam este movimento de autoaceitação e compreensão.

“Geralmente, se observamos um núcleo familiar no qual os membros lidam bem com qualquer diferença, essa criança tende a não passar por nenhum distúrbio de imagem fora de casa. Como responsável eu vou, então, criar um espaço seguro dentro de casa, onde essa criança possa valorizar quem ela é, sua aparência e sua cultura. Assim, fora daquele espaço ela vai entender que existe a diversidade, e que ela é mais uma dentro desse meio diverso, e não que ela precisa ser igual aos demais”, desenvolve.

Quando isso não é possível, é preciso buscar por um profissional especializado em saúde mental, que dispõe de conhecimento e das ferramentas necessárias para fazer com que essa criança crie mecanismos e saiba lidar não apenas com seus próprios limites e crenças, mas também com a diversidade na sociedade como um todo.

Rosana acrescenta que a imagem corporal reúne fatores físicos e emocionais de cada ser humano, e que a saúde mental só é atingida quando a percepção do corpo se aproxima a essa imagem real. Se os pais e cuidadores perceberem que seus pequenos estão em sofrimento por causa disso, é hora de buscar ajuda profissional, cujo tratamento deve envolver uma equipe multidisciplinar, capaz de tratar de todos os vários aspectos ligados ao problema.

Acolhimento e reforço da identidade

 

Por fim, além do acompanhamento profissional, é preciso que a criança que vem sofrendo com o distúrbio de imagem receba apoio e acolhimento também dentro de casa. Novamente, a promoção de um ambiente no qual o pequeno sinta-se seguro e amado, aceitando e reconhecendo a sua identidade, podem também contribuir para a reestruturação da própria imagem.

“A criança aprende de forma lúdica, portanto é importante que os pais interajam desta maneira. Se a criança gostar de ler, que sejam introduzidas leituras, se ela gostar de filmes, invista em filmes e documentários com o tema da aceitação. Cada pessoa tem sua estrutura e interpreta os acontecimentos através de seu sistema representacional e, por isso, falar de forma que a criança compreenda e tenha preferência pode trazer resultados satisfatórios”, arremata Rosana.

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