Mais de 100 crianças sumiram em 2020: ‘ E se fosse seu filho?’

Elas sentem como se faltasse um pedaço e morrem um pouco mais todos os dias por não saber onde estão os filhos. O mais recente caso dos três meninos de Belford Roxo, na Baixada Fluminense do Rio, que desapareceram  sem deixar rastros há quase um mês, ilustra e reacende o drama vivido por muitas famílias. Crianças desaparecidas.

“E se fosse o seu filho que tivesse desaparecido?”

O questionamento emocionado é da dona de casa Luciene Torres, que procura a filha desaparecida há 11 anos, também na Baixada Fluminense.

Vinculada à Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) registrou em todo o estado, no ano passado, 148 casos de desaparecimento de crianças e adolescentes.

De acordo com o órgão, 119 casos foram resolvidos, representando mais de 80% de localização. Desde 1996, o cadastro no sistema é feito pelo S.O.S Crianças Desaparecidas e de lá para cá, são 3.780 casos, e já foram localizados 3.220. 

De acordo com a FIA, 578 casos de desaparecidos permanecem sem solução.

Sem rastros

A dor das famílias em busca dos desaparecidos é a ferida que nunca cicatriza. Luciene Torres, a fundadora da Organização Não Governamental Mães Virtuosas no Brasil, viu seu mundo literalmente cair, quando a filha, na ocasião com 9 anos, desapareceu.

“Ela levantou de manhã e foi em uma padaria próxima a nossa casa em Nova Iguaçu. Tomou banho, se vestiu toda de rosa e saiu. Como achei que ela estava demorando muito, minha outra filha foi procurar e não encontramos. Na época tinha um local que fazia anúncio de notícias do bairro e fomos até lá. Logo depois recebemos a informação de que um homem de bicicleta tinha levado ela e aí o nosso desespero começou” 

De acordo com Luciene, a família descobriu no mesmo dia,  que o suspeito seria um andarilho.

“Poucas foram as informações repassadas pra mim na delegacia. Mas uma policial me confidenciou disse que ele [andarilho] falou apenas que não tinha matado e só repassado a minha filha. Eu descobri tempo depois  que ele foi solto e ficou por isso mesmo. Fiquei decepcionada, pois nada foi feito no caso da minha filha”, desabafa.

Invisíveis

Segundo a fundadora da Ong, casos como o da pequena Luciane de 9 anos se tornam invisíveis para a sociedade. 

“Nesses 11 anos eu fui conhecendo na FIA outras mães que passam pela mesma dor que eu. E todas nós temos o mesmo sentimento. Somos esquecidas. Não temos um acompanhamento psicológico e ficamos sem apoio jurídico. E no fim tudo vai parando na vida da gente. A polícia para de investigar, a gente sem o filho, sem saber para onde ir. É onde nossa vida para”, lamenta. 

A dificuldade da procura e ao mesmo tempo em continuar a rotina também está entre os dramas sofridos por essas famílias.

“No meu caso eu tenho outros filhos e é muito difícil porque sempre falta algo. Dependendo do marido, ele acompanha ou não nas buscas. Mas tem caso em que a mulher é abandonada por estar em depressão. Eu fui vendo essas coisas e pensei  no que fazer para não deixar que tudo acontecesse comigo. Foi aí que resolvi criar a ONG, para tentarmos nos ajudar”, explica.

Apoio

A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado Rio de Janeiro (Alerj), presidida pela deputada estadual Renata Souza (Psol), acompanha casos de crianças desaparecidas para realizar um encaminhamento até a assistência jurídica e psicológica.

“O trabalho é acolher essas famílias. Então, pressionamos as autoridades para que as investigações ocorram. No caso dos meninos da Baixada, por exemplo, já entramos estamos em contato com a Delegacia de Homicídios para saber o que está sendo feito”

A deputada destaca ainda que famílias, as vezes, encontram dificuldades no registro de ocorrência imediato.

“Temos um protocolo de atendimento que não é adequado com as famílias que perderam filhos. Temos que fazer a valer o cumprimento da lei e não ter que esperar 24 horas para fazer o registro de ocorrência para começar as investigações”, conclui.

A arte imita a vida

Em 1995 estreava no horário nobre da televisão brasileira o folhetim Explode Coração, da autora Glória Perez. Entre os temas abordados na trama, o ponto alto se tornou a campanha pelas crianças desaparecidas.

A escritora buscou inspiração nas mulheres que ficavam nas escadarias da Cinelândia, no Centro do Rio.

“O que me impressionou e me alertou sobre esse tema foi a sensação de que aquelas pessoas estavam esquecidas. Eu passava ali e as via segurando uma foto. Pessoas passam apressadas e muitas vezes nem percebem”

Glória Perez, autora

Glória revela ainda ter questionado as mães sobre o que faltava para ajudar a encontrar as crianças.

“Elas me falaram sobre a divulgação dos rostos. Então resolvi dar voz a essas mulheres. E então na novela elas contavam as circunstâncias do desaparecimento e mostravam a fotografia”, explica.

Ainda segundo a autora, durante a exibição da novela, foram encontradas por volta de cem crianças.

“Isso aconteceu logo no primeiro capítulo. Choviam telefonemas de todo o Brasil, eram mães desesperadas querendo participar, ter sua chance.
As ligações eram atendidas pelas mães das chacinas de Acari e de Vigário Geral, que se organizaram para abraçar a causa solidária”, afirmou.

Glória Perez relembrou que, na época, o empresariado comprou a proposta e as fotos dos desaparecidos passaram a ilustrar até produtos de supermercados. 

“A campanha ultrapassou o término da novela, mas infelizmente acabou. Foram encontradas muitas crianças. As imagens delas estavam em sacolas e produtos. Acho que não custava nada os empresários fazerem isso novamente”

Fragmentos

Mestre em Psicologia, Alessandra Augusto, destaca que muitos são os pontos de trauma que famílias enfrentam após o desaparecimento dos filhos.

“Elaborar essa perda é muito difícil porque a pessoa não tem algo no que se apegar. A esperança da chegada parece que é sem fim. O desejo de rever, a dúvida de estar bem ou não, consome os familiares”

Segundo a especialista, é comum após os desaparecimentos as famílias se fragmentarem.

“Conforme o tempo vai passando, gera esse clima e começam a surgir questionamentos sobre quem negligenciou cuidados, se há criança teve um motivo em si, ou se o clima do lar não estava adequado”, pontua.

Mas apesar do trauma a psicóloga atenta para a esperança de que ainda possível recomeçar:

“É necessário um bom trabalho terapêutico para que os afetos sejam ressignificados. É importante saber que o núcleo familiar permaneceu, podendo existir outros filhos, que precisam de um suporte emocional”.

compartilhe em sua rede social

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on skype
Skype
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.